“Cicleares”


33Nada será como antes. O tema da semana aparentemente simples é um assunto que desperta muitas reflexões. São tantas que fica difícil concatenar todas as ideias que aparecem. Então, escolhi duas variáveis entre tantas, que são distintas, mas com pontos tangenciais.

Aqueles que acompanham nossos textos publicados aqui já devem ter percebido que meu pensamento é de um “cartesiano em fuga”. E o que me faz tentar fugir: exatamente a consciência da dessa condição característica e a certeza de que existe algo de interessante fora dessa ambiente. Parece que sempre fui desses de criar teorias para entender o mundo… ou meu mundo. Ainda muito criança, lembro, que desenvolvi uma “teoria maluca”, sem nenhum fundamento científico, claro: comecei a acreditar que o tempo não passava de maneira contínua e sim pulava de um instante para outro. Isso baseado na observação de um relógio associado a ideia de números fracionados, ou seja, o segundo X1 se aproximaria tanto do segundo X2, mas ele nunca alcançaria o momento seguinte, a não ser que saltasse. Muito anos depois vi algo parecido na universidade quando estudei cálculos, limites, derivadas… essas coisas que nem lembro mais direito.

Partindo dessa linha de raciocínio, na prática, hoje me pergunto se nossas vidas são lineares ou cíclicas – fazendo uma ligação entre o mundo matemático e as relações sociais e até mesmo psicológicas. Não sei como, mas também poderiam ser ambas: lineares e cíclicas.

Não estou em uma banheira, mas… “Eureka”, acho que é isso, nossas vidas são “cicleares”!!!

Eu sei, eu sei… a Flor já me disse, costumo complicar as coisas… mas gosto disso!

Mas porque “cicleares”?

Vejam bem, não há nenhuma lógica se nossa trajetória fosse igual ao “MRU” que estudamos na Física. Nasceríamos e não teríamos passado, porque o único objetivo seria andar para frente, sem olhar para trás, sem legado nem aprendizagem proporcionada pelas experiências. Por outro lado, também não há sentido vivermos apenas indo e voltando, permanentemente, para o mesmo lugar de onde saímos. Seria uma existência determinista e também não estaria presente o elemento aprendizagem, porque sempre faríamos as mesmas coisas!

Mas parece que a grande sacada nisso tudo é saber a medida certa, o equilíbrio. Identificar qual é o momento de seguir em frente, usando as experiências passadas como um motor para não repetir certas vivências consideradas desagradáveis, assim como perceber aquele instante de retomada, de resgate de algo que ficou para trás, para construir melhor o momento presente.

A outra variável, que citei no início do texto, é a necessidade de mudanças. Normalmente temos medo dela. Claro que também fico apreensivo com as mudanças, mas até o momento que racionalizo e encontro algo de bom. No mínimo elas oferecerão situações desafiadoras, proporcionando aprendizado e renovação. Então, o qual seria o principal elemento que nos impulsiona, se tratando de mudança? Penso que seria a condição de estarmos vivos ou mortos. Dessa vez não vou explicar essa afirmação. Mas se o leitor aguentou chegar até a essa parte do texto, proponho que, a partir das suas experiências, racionalize objetivamente a condição de vida/morte, relacionando com os seguintes aspectos: desafio, aprendizagem e renovação. Lembrando que há vários tipos de vidas/mortes, além de que podemos considerar que todos os dias “morremos” um pouquinho, várias vezes, e que a “vida” pode ser uma opção.

Para finalizar, gostaria apenas de fazer uma observação quanto aos os pontos tangenciais que citei no primeiro parágrafo. Acredito que o leitor observou que esse ponto consiste no aprendizado, expressão que usei no decorrer de todo texto. Sim, este é o sentido de estarmos aqui, aprender a cada instante, com cada experiência vivenciada, nos transformarmos em pessoas melhores, fazer a diferença positivamente e transmitirmos essa semente. Sei que não é fácil, mas é o que busco!

Trabalho, lazer e estudo!


32O ócio criativo. Esse é o título de um livro do autor italiano Domenico de Masi, que li há mais de 10 anos. Esse livro, juntamente com outros, foi transformador, lido em uma fase em que eu estava ampliando minhas perspectivas de mundo e de vida. Lembro e posso até dizer quais são alguns desses que citei: Simplicidade Voluntária, Ponto de Mutação, A Profecia Celestina e, mais tarde, O Segredo – esse último não achei tão bom, imagino que já estava saturado do assunto e parti para outra linha de conhecimento.

O livro de de Masi trata sobre trabalho. Naturalmente associamos a palavra ócio a preguiça, inutilidade e desocupação, mas a proposta não é essa. Ele defende que parte do trabalho humano seja substituído por máquinas e tecnologia e durante o tempo em que não se esteja laborando as pessoas se dediquem ao estudo e ao lazer, potencializando o que o homem faz de melhor, que é pensar e criar.

O contato que tive com essa obra ajudou a consolidar algumas impressões que obtive através de observações e experiências ao longo de anos. Vou explicar melhor essa história. Sinto que a manutenção de rotinas em alguns ambientes laborais são extremante entediantes e contraproducentes, principalmente quanto nesses locais se desenvolvem atividades mentais – essa foi a natureza de minha ocupação por muitos anos. Era muito incomodo ter que todos os dias chegar na hora certa e ter que desenvolver tarefas mentais sem a menor vontade ou inspiração e, além disso, uma tremenda perda de tempo em estar ali, tendo a plena convicção que em outro ambiente e circunstancias, aquele trabalho fluiria bem melhor e mais rápido.

Outra sensação de perda de perda de tempo era durante as conversas no horário de trabalho. Achava muito chato as pessoas conversando comigo, para “passar o tempo”, sempre com os mesmos assuntos ou ainda sobre coisas que não eu não tinha o menor interessem, sem falar dos processos de raciocínio, concentração, memoria, organização mental, que estava desenvolvendo e foram interrompidos.

Quanto a mim, especificamente, ainda há um fato agravante: não consigo produzir bem pela manhã… sou noctívago, meu corpo funciona 100% a noite!

Imaginava como seria interessante se fosse possível saltarmos dessa rotina que nos aprisiona e trabalharmos livres, apenas cumprindo metas. Certamente seria mais produtivo, eficiente, eficaz e feliz. Mas normalmente as empresas mais tradicionais valorizam pouco as pessoas que pensam e muito mais aquelas que fazem… ou dizem que faz.

Repetindo, para enfatizar, sei que esse tipo de situação não se aplica a todas as atividades laborais, tanto por questão da natureza e especificidade do trabalho como porque a maioria das instituições não estão preparadas para implementar modificações de paradigmas, que implicaria em mudanças consideráveis na cultura organizacional, estrutura e processos.

A minha percepção sobre o trabalho vai ao encontro das ideias de Domenico de Masi em várias questões. Mas um ponto que gostaria de compartilhar é quanto a necessidade das pessoas serem mais felizes e essa condição implica em ter satisfação profissional, tendo em vista que, em média, passamos metade da nossa vida plenamente consciente no trabalho – se considerarmos o período do sono de 8 horas.

E essa ausência de felicidade no trabalho é muito obvia quando observamos as pessoas contando as horas para saírem, quando contam os dias para a chegada do fim de semana ou dizem ficarem triste quando escutam o início do Fantástico, porque sabem que tem de trabalhar no outro dia. Para mim isso parece um tremendo contrassenso, porque tanta gente desempregada e as pessoas ficam angustiadas porque vão começar a trabalhar! Também para mim é triste e sem lógica essa espera ansiosa pelo fim de semana. É como se você vivesse mais 70% de sua vida no automático e somente desfrutasse menos de 30% – bem ou mal comparando é como se você tivesse vivido 60 anos e aproveitado 18 anos.

Mas chega de elucubração. Talvez eu seja apenas um sonhador ou alguém que pensa além da conta, que não está plenamente satisfeito com a realidade imposta e vai de encontro ao que está posto…

… Segundo “Ela”, os astros são os culpados. Será?!?!