Cogito ergo sum


35No final do último texto terminei usando a seguinte expressão: “…conformado com a minha sapiência humana limitada”, complementando que esse era assunto para outro momento. Aproveitando a ideia, minha amiga Hortênsia logo sugeriu que escrevêssemos sobre o assunto e eu, de imediato, aceitei sem nem pestanejar.

De maneira geral, meu pensamento sobre isso é que como indivíduos da espécie humana somos restritos em tempo e espaço. A consequência disso é que existe uma necessidade contínua de aprendizado, de adquirirmos constantemente novos conhecimentos, mas que também somos restritos para compreendermos muitas coisas que estão além do limite da nossa condição.

Associada a essa necessidade intrínseca está a nossa capacidade de criar, imaginar e fantasiar, bem como um certo incômodo em não compreendermos o que ainda não sabemos (talvez nunca saibamos). Então, acredito que usamos essas duas características para desenvolvermos mecanismos de conformação, tipo uma sublimação. De alguma maneira as respostas fictícias satisfazem o anseio por respostas, quando questionadas sobre a ausência de elementos concretos ou comprováveis, fazem uso da pequenez humana para justificar as situações, a partir do contexto da fantasia elaborada.

Se observarmos bem esse é um comportamento coletivo, atemporal e situacional – pode ser verificado em vários momentos da história, em locais diferentes para explicar fatos diversos.

Como diz meu amigo1 Pedro Calabrez – pesquisador do Laboratório de Neurociências Clínicas, energia é algo muito precioso e na natureza os seres buscam adquiri-la com o menor esforço e gastar apenas o mínimo necessário. Então, seguindo essa lógica, creio que faz todo sentido acreditarmos em ideias prontas, pensamentos pré-concebidos e seguirmos as tendências do momento, que gastar nossas energia e perder tempo pensando, subvertendo a ordem constituída ou até mesmo confrontando ideias.

1 Sou amigo dele, mas certamente ele nem me conhece, logo não é meu amigo!

Você tem sorte?


34Hoje escreverei sobre sorte. Os mais pragmáticos falam que sorte se resume a junção entre competência e oportunidade, dizem que não é interessante nós deixarmos que ela direcione nossa vida; outros atribuem as condições que se encontram a fenômenos que fogem ao nosso controle, associadas a merecimento ou fatores aparentemente casuais.

Simpatizo com esses pragmáticos ai, mas acredito que tudo não se resume a isso. Penso que pessoa céticas, como eu, tendem a serem observadoras. Pois bem, vejo que há acontecimentos bons, ocorridos comigo, que independem do preparo e da oportunidade e são frequentes, situações que fogem de curso que natural.

Chego a pensar que a diferença de quem tem sorte para quem não tem consiste apenas nisso: observação. Que a todo momento e repetidamente coisas boas e acontecem conosco, mas apenas algumas pessoas tem a capacidade de enxergar. Essa percepção é uma característica incomum, pois hoje recebemos tantos estímulos que fica difícil estarmos atentos a “detalhes” de menor importância. Também é mais confortável, diante dessas “pequenas dádivas”, acreditarmos que somos especiais, que por algum motivo inexplicável estamos recebendo algum tipo de “benção”.

Enfim, acredito no preparo e na oportunidade juntas para resultar em sorte, mas também creio que há algo além disso. Não sei explicar e nem sou obrigado a saber de tudo… e quanto isso, estou conformado com a minha sapiência humana limitada – esse é um bom tema para o próximo texto.