Nada será como antes…


33Tenho pensado muito na vida e nos minutos que vão se esvaindo. No tempo, no luto das escolhas e na morte dos sonhos.

Sim, eu sei, comecei esta conversa de um jeito meio depressivo, introspectivo, talvez…

Então vamos às coisas figurativas pois talvez assim, nossa conversa fique mais palatável. Há uma frase clássica que diz que um rio não passa duas vezes no mesmo lugar. Isso significa não que o rio vá sair do seu curso, mas que água nunca será igual. Acho que esta é uma linda analogia com nossa vida e a passagem do tempo. Nossa vida pode parecer exatamente igual. Termos os mesmos amigos, o mesmo trabalho, a mesma profissão, mas cada dia, cada minuto, cada segundo, é único. E é uma pequena morte.

Morrem diariamente muitas vontades, muitos desejos e nascem outros, evidentemente. Mas quero falar das pequena mortes. Daquelas coisas que sabemos que não serão como antes. Essas pequenas mortes acumuladas às vezes resultam num grande luto. São aquelas situações em que você diz não pra si mesmo para dizer sim ao outro. Vai cedendo, vai se perdendo e vai morrendo aos poucos.

É o trabalho que você prioriza tanto, que aos poucos vai esquecendo de si mesmo. E o que era prazer vira prisão.

É o relacionamento em que, para ficar com o outro, você tem que fazer concessões e viver como passarinho em gaiola, cujo canto é triste, embora as penas sejam lindas e brilhantes.

É o confronto constante da vontade e da razão, da criatividade e do limite, do enquadramento dos sonhos dentro do possível a cada um. Limites, sempre limites. Sempre pequenas mortes e lutos somados…

Tem uma frase célebre que diz que a vida é feita de escolhas. Mas escolhemos dentro de possibilidades que se colocam e que, nem sempre, dependem unicamente de nós. E aquilo que não depende de nós, mesmo que se diga sim, nasce com um não para a nossa vontade. Por exemplo, no trabalho, digamos que lhe ofereçam uma determinada posição na organização, que lhe remunera melhor, mais lhe exige muito mais tempo e distanciamento da família. E que você precise deste adicional de salário. Você possivelmente dirá sim e dirá não ao seu desejo de permanecer como está.

Num relacionamento amoroso é do mesmo jeito: quando você diz sim a uma situação, está dizendo não a outras que se colocam. Faz concessões. Nenhuma liberdade é incondicional. E a partir do momento que você faz escolhas, então nada será como antes porquê o tempo não retrocede.

Seja qual for a situação, é claro que você sempre poderá voltar atrás, tentar novamente com aquele amor esquecido, voltar para aquele cargo pretendido no trabalho, refazer sua carreira ou escolher de novo o curso que desejava fazer e não fez. A questão é que nada será como antes porquê você não será mais a mesma pessoa. Já terá vivido novas coisas e já terá feitos escolhas. Pequenas mortes já ocorreram. Os lutos já se instalaram.

E a reflexão final aqui é: como você lida com isto? Se nada será como antes, o que vem depois? Bournout, a síndrome do consumir-se por dentro? Transtornos da ansiedade típicos de quem vive o futuro? Depressão por viver de passado? Ou será que você é um dos privilegiados que aprenderam a ser resilientes como o bambu, plásticos como a água que se amolda aos seus espaços continentes e leve como as borboletas que, destituídas do senso de finitude, vivem plenamente seu tempo ínfimo como se ele não existisse?

Beijos de uma flor pensativa…

“Cicleares”


33Nada será como antes. O tema da semana aparentemente simples é um assunto que desperta muitas reflexões. São tantas que fica difícil concatenar todas as ideias que aparecem. Então, escolhi duas variáveis entre tantas, que são distintas, mas com pontos tangenciais.

Aqueles que acompanham nossos textos publicados aqui já devem ter percebido que meu pensamento é de um “cartesiano em fuga”. E o que me faz tentar fugir: exatamente a consciência da dessa condição característica e a certeza de que existe algo de interessante fora dessa ambiente. Parece que sempre fui desses de criar teorias para entender o mundo… ou meu mundo. Ainda muito criança, lembro, que desenvolvi uma “teoria maluca”, sem nenhum fundamento científico, claro: comecei a acreditar que o tempo não passava de maneira contínua e sim pulava de um instante para outro. Isso baseado na observação de um relógio associado a ideia de números fracionados, ou seja, o segundo X1 se aproximaria tanto do segundo X2, mas ele nunca alcançaria o momento seguinte, a não ser que saltasse. Muito anos depois vi algo parecido na universidade quando estudei cálculos, limites, derivadas… essas coisas que nem lembro mais direito.

Partindo dessa linha de raciocínio, na prática, hoje me pergunto se nossas vidas são lineares ou cíclicas – fazendo uma ligação entre o mundo matemático e as relações sociais e até mesmo psicológicas. Não sei como, mas também poderiam ser ambas: lineares e cíclicas.

Não estou em uma banheira, mas… “Eureka”, acho que é isso, nossas vidas são “cicleares”!!!

Eu sei, eu sei… a Flor já me disse, costumo complicar as coisas… mas gosto disso!

Mas porque “cicleares”?

Vejam bem, não há nenhuma lógica se nossa trajetória fosse igual ao “MRU” que estudamos na Física. Nasceríamos e não teríamos passado, porque o único objetivo seria andar para frente, sem olhar para trás, sem legado nem aprendizagem proporcionada pelas experiências. Por outro lado, também não há sentido vivermos apenas indo e voltando, permanentemente, para o mesmo lugar de onde saímos. Seria uma existência determinista e também não estaria presente o elemento aprendizagem, porque sempre faríamos as mesmas coisas!

Mas parece que a grande sacada nisso tudo é saber a medida certa, o equilíbrio. Identificar qual é o momento de seguir em frente, usando as experiências passadas como um motor para não repetir certas vivências consideradas desagradáveis, assim como perceber aquele instante de retomada, de resgate de algo que ficou para trás, para construir melhor o momento presente.

A outra variável, que citei no início do texto, é a necessidade de mudanças. Normalmente temos medo dela. Claro que também fico apreensivo com as mudanças, mas até o momento que racionalizo e encontro algo de bom. No mínimo elas oferecerão situações desafiadoras, proporcionando aprendizado e renovação. Então, o qual seria o principal elemento que nos impulsiona, se tratando de mudança? Penso que seria a condição de estarmos vivos ou mortos. Dessa vez não vou explicar essa afirmação. Mas se o leitor aguentou chegar até a essa parte do texto, proponho que, a partir das suas experiências, racionalize objetivamente a condição de vida/morte, relacionando com os seguintes aspectos: desafio, aprendizagem e renovação. Lembrando que há vários tipos de vidas/mortes, além de que podemos considerar que todos os dias “morremos” um pouquinho, várias vezes, e que a “vida” pode ser uma opção.

Para finalizar, gostaria apenas de fazer uma observação quanto aos os pontos tangenciais que citei no primeiro parágrafo. Acredito que o leitor observou que esse ponto consiste no aprendizado, expressão que usei no decorrer de todo texto. Sim, este é o sentido de estarmos aqui, aprender a cada instante, com cada experiência vivenciada, nos transformarmos em pessoas melhores, fazer a diferença positivamente e transmitirmos essa semente. Sei que não é fácil, mas é o que busco!