Entre dois amores e tantos outros desejos


31Dia desses me deparei com uma situação inusitada. Fiquei completamente só. Um compromisso profissional me fez ter que percorrer grandes distâncias e ir a lugares desconhecidos. Essa experiência, que num primeiro momento pensei que ia odiar, na verdade foi maravilhosa. Só comigo, tive a oportunidade de me amar!

Não, queridos leitores. Eu não me amo pouco no cotidiano. Usei este termo para expressar que no cotidiano abrimos mão de muitas coisas que nos são caras. Esquecemos de nós e vivemos em muitas situações, o desejo do outro, nas pequenas coisas. E assim, nossos prazeres vão ficando em segundo plano e acabamos nos esquecendo deles.

No dia a dia as convenções são tantas que nos predemos a muitas coisas que não são da nossa vontade: aquela boa noite de sono só com nossos travesseiros e até a hora que nos der vontade; uma comida diferente; um filme que ninguém mais quer ver; uma roupa louquinha, desconectada do seu papel social.

Quando nos damos conta desses prazeres também entendemos que podemos ter vários amores: amor de família; amor de amigo; amor de filho; amor próprio; amor-paixão. E que cada amor nos dá prazeres diferentes e únicos. Satisfazem desejos diferentes e não são mais ou menos amores.

Sendo absolutamente sozinha descobri que não sou uma mais muitas. Talvez isto estivesse escrito nas estrelas quando fui batizada como Hortênsia, a flor que se transmuta de acordo com o solo e com o tempo. Talvez não. Não saberei. Descobri que minhas muitas Eu podemos ser felizes e sentir menos culpa, não matando uma às outras, mas reconhecendo que todas nós Eus, devemos coexistir e viver nossos desejos para que possamos ser uma só, completa e feliz!

Concluo com um trecho de Paulo Coelho que nos lembra que não devemos tolher as flores ou podemos perder o melhor que elas têm a nos oferecer::

“As flores refletem bem o que é o amor.

Quem deseja possuir uma flor, irá vê-la murchar.

Mas quem olhar uma flor no campo, terá esta beleza para sempre”.

Caiu na rede, é peixe!


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Blogueira que se preza, se inspira no cotidiano. Assim, a inspiração para um determinado tema surge nos lugares mais inusitados: enquanto ando pela rua; num transporte público; num salão de beleza; no almoço. Foi exatamente prestando atenção na conversa alheia durante o almoço que comecei a refletir sobre as redes sociais.

Como flor eclética sociável que sou, é bom que fique claro que tenho muitos amigos. Meus amigos se distribuem por várias faixas etárias, orientações sociais, estados civis, etnia, religião. Há amigos que vejo sempre e aqueles com quem quase nunca estou, presencialmente. E aí entram as redes sociais.

As redes sociais podem ser uma ferramenta muito útil para aproximar pessoas que se querem bem mas também podem ser uma maneira de se manter uma falsa relação e a ilusão que se têm muitos amigos. Deste modo, o que deveria ser uma rede social se torna uma mídia social: instrumento para a disseminação em massa de uma propaganda de nós mesmos.

Disse que me inspirei numa conversa alheia. Pois bem: a conversa era entre duas garotas que comparavam quantos amigos virtuais tinham (cada uma com quatro dígitos) e quantas curtidas recebiam dos “amigos” em suas postagens.

Fiquei pensando sobre essas duas flores conversadeiras e imaginei que elas eram rosas de floricultura, daquelas produzidas para serem olhadas. O triste era que elas se vendiam assim. Tanto que a primeira providência quando o almoço chegou foi de fotografar o prato e postar, junto com tantas outras selfies, planejadas e posadas, num frenesi midiático.

Aquele comportamento narcísico me incomodou um tantinho. Tive vontade de perguntar se elas conseguiam falar presencialmente com seus mais de mil amigos pelo menos uma vez ao ano, ou dar um telefonema para ouvir a voz de vez em quando.

Isto me fez pensar no meu uso das  redes sociais (sim, redes e não mídias). Nelas, só está quem eu acho que merece e o que posto, acredito que meus amigos de verdade vão ver e entender. Mensagens só são enviadas quando há necessidade real de interação. Nada de um bom dia sem propósito ou de um boa noite sem necessidade. Eles e elas sabem que os quero muito bem e que mesmo o silêncio é às vezes necessário nas relações interpessoais.

Pensando nisso, quero finalizar dizendo que quem está na minha rede é meu peixe, termo usado por um jogador de futebol do passado para designar seus amigos e parceiros. Quem está nas minhas redes não é de modo nenhum um quase anônimo que vi uma vez na vida, uma pessoa cujos hábitos só conheço da mídia social, mas ser de carne, ossos, desejos e coração.

Beijos sociais de uma flor conectada!