Diálogos do jardim


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Hoje é um belo dia de sol e eis-me aqui no jardim, conversando com minhas amigas flores. Tenho amigas muito diversas. Algumas são flores daquelas que desabrocham rápido, com frescor e beleza, e rapidamente perdem o viço. Alguns diriam que são como as nove-horas. Outras são duradouras como crisântemos de arranjos de festas. Só têm graça quando estão sob os holofotes. Outras são como lírios da paz, trazendo consigo uma beleza tranquila, de gestos nobres. Gosto de todas elas. Mas há uma, em especial, que muito admiro: a Rosa.

Rosa tem a graça de uma senhora. Se fosse uma mulher, suponho que teria uns 50 anos. Não é uma rosa La France, daquelas que seduzem e encantam imediatamente. É uma rosa branca, de perfume suave, às vezes quase sem perfume. É uma rosa que a brisa sacode e que já se despetalou um pouco.

Conta-me minha amiga a sua história. Diz-me que foi plantada em um jardim com muitas ervas daninhas, crianças jogando bola, adversidades para alguém que buscava a suavidade. De vez em quando também esqueciam de regá-la e ela perdia um pouco do viço. Desenvolveu espinhos. Entendi que precisava mesmo deles para enfrentar o seu mundo. Tentei não fazê-lo mas não resisti: quanto mais Rosa falava, mais eu a comparava mentalmente a outras flores, e como flor metida que sou, já me imiscuí no seu mundo mental fantasiando como seria a vida dela se fosse uma mulher.

Imaginei a Rosa como uma mulher comum. Somos acostumados a pensar as rosas como a rainha das flores, mas entendi que nem todo jardim é um reinado. Às vezes é mesmo uma prisão. Então, como mulher comum, a Rosa tem amores e dores. E por se saber comum se torna diversa. E por conhecer a dor, ama profundamente. E por amar profundamente, as dores doem menos. E o que dizer dos espinhos? Agudos, brilhantes como aqueles olhos misteriosos que sorriem quando a boca está séria e ficam sérios quando um sorriso passeia no rosto.

Dizem que toda rosa faz sucesso. Mas o sucesso da minha amiga não vem do que ela conquistou. Nem tampouco do que possui. Diria mesmo que ela talvez nem sinta que faz sucesso. Talvez isto não lhe seja importante… No entanto eu acredito que no seu sucesso porque poucas de nós flores temos entendimento de quem somos e porque estamos no jardim. E isso ela tem. E como tem!

Fico eu, uma hortênsia atrevida, sonhando em ser como ela: altiva, com a altivez de quem já viveu para além do nosso tempo; ao mesmo tempo serena e impaciente, segura e tímida, caliente e terna.  Mas no fim da conversa, embora maravilhada com a sua maturidade, acho que prefiro ser eu mesma e passar por todas as mudanças que estão por vir.

Poderia dizer ainda, da minha amiga, que uma frase da Martha Medeiros, uma das minhas autoras favoritas, a representa muito bem: “Daqui “do alto”, contemplo a vista panorâmica do trajeto percorrido até agora e, incluindo os bons e maus momentos, o meu olhar é muito grato”.

Que a maturidade nos chegue um dia com a graça das rosas!

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