Estiolamento ou desenvolvimento?


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Hoje ando pensativa. Li um texto do Caio Fernando de Abreu que diz assim: “Eu quis tanto ser a tua paz, quis tanto que você fosse o meu encontro. Quis tanto dar, tanto receber. Quis precisar, sem exigências. E sem solicitações, aceitar o que me era dado. Sem ir além, compreende? Não queria pedir mais do que você tinha, assim como eu não daria mais do que dispunha, por limitação humana. Mas o que tinha, era seu.” Chamou-me a atenção exatamente a menção à limitação humana. Fiquei pensando no quanto a nossa história de vida, num dado contexto nos limita ou, ao contrário, nos faz utilizar nossas potencialidades. Acredito que é no tecido social que construímos aquilo que somos. Nossa consciência então não e só nossa. É, em certa medida, uma consciência coletiva que nos diz até onde podemos ou devemos ir. Nesse movimento, iniciado no momento em respiramos nossa primeira golfada de ar no mundo, vamos nos moldando a regras, horários, cobranças, deveres, prazeres, mitos, verdades, crenças sobre nós e sobre o que esperam de nós. Nosso caminho vai sendo traçado, potencializado ou limitado, funcionando o meio social como o terreno em que as plantas florescem.

É… Estava demorando para a flor que há em mim falar mais alto… Somos como as flores, sim. Se há adubo, sol e água, e podas razoáveis, florescemos. Estimulados somos capazes de aprender, nos tornamos motivados, buscamos o crescimento, nossas emoções são congruentes e nosso crescimento constante. Aliás, de acordo com Rogers o pleno desenvolvimento é natural ao ser humano (ou das flores humanas?). Por outro lado, se somos podados em excesso, se a terra é árida, e só há escuridão, murchamos, perdemos o viço, morremos um pouco cada dia. Morremos não de morte morrida, mas de morte matada, quando o meio não nos dá condição de sermos plenos. Somos limitados quando nos é negado o alimento, a educação, o afeto, a saúde. Quando o trabalho é precário e quando a violência se instala nas relações. Essas limitações bloqueiam nossas potencialidades. De vez em quando uma ou outra flor, buscando desesperadamente a luz do sol, consegue se espichar para além do que lhe seria possível, embora pálida e sem viço (o que no mundo das plantas se chama estiolamento). No mundo dos humanos diz-se que se essa pessoa conseguiu então todos podem. Viva a meritocracia!

Volto ao Caio Fernando de Abreu que diz: “Nada em mim foi covarde, nem mesmo a desistência. Ao contrário: desistir, ainda que não pareça, foi meu grande ato de coragem.”  Tem muita flor por aí que não vai estiolar, mas vai permitir que outras se desenvolvam plenamente. Tem muita flor que vai esparramar menos suas raízes para que sobre adubo para as demais. E tem muita planta que, abrindo timidamente suas flores, vai permitir que suas mudas cresçam vigorosas e poderosas. Limitam-se para outras atinjam plenamente seu potencial.

Abraços floridos!

Muito sol para vocês!

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