Santa sapiência, meu caro Batman!


35Nesses tempos sombrios, fui desafiada pelo meu amigo Tsun a falar sobre a sapiência humana. Então, primeiro vamos ver o que é essa tal de sapiência. De acordo com o dicionário, seria a qualidade de quem possui erudição e conhecimento em profundidade. O termo ainda é ligado à sabedoria generalizada e também aquela que vem do divino. Sapiente, seria o ser humano que extrapolasse o conhecimento comum aos demais.

Me pus a pensar na tal sapiência humana… Será realmente o homem o mais sábio ser vivo que conhecemos? Ser sábio implica numa capacidade grande de ler o contexto no qual nos inserimos e não apenas na quantidade de conhecimento que temos. Então, antes de chegar nas pessoas, vou dar uma voltinha nos reinos dos seres vivos… Vamos comigo nessa visita imaginária acreditando que esses reinos são compostos por pessoas?

Fui transportada numa carruagem de fogo para o Reino Monera. Lá, encontrei o Rei. Convidou a conhecer seu castelo. Muito gentil, me explicou como as coisas funcionavam por lá: “aqui é cada um por si”. Como assim? Perguntei eu querendo entender mais. “Olha, aqui é muito fácil ser rei. Cada um é dono de si. Produz para si.” E não há conflitos? Indaguei ao rei. “Existem alguns mas não duram, porquê sempre há um lado que consome o outro para sobreviver.” E o senhor gosta de reinar aqui aqui? Onde entra o coletivo? “Minha filha, não temos esse modal de transporte por aqui… Pegue sua carruagem de volta. Mas, mas… Eu ainda não terminei. “Mas eu já”.

Chateada peguei minha carruagem e fui pro reino Protista. Devo dizer que ao chegar tomei um certo susto: ao contrário do reino anterior, encontrei um Conselho bem diversificado. Perguntei como as coisas funcionavam. “Olha, aqui é tudo bom demais. Eu, por exemplo, me achei aqui. Não cabia em nenhum lugar, me sentia estranho, sabe? aqui sou aceito como sou.” Devo dizer que tive uma apreciação imediata por aquele reino que permitia que os seres fossem como eram. Claro que não serei hipócrita de dizer que a liberdade total me deu um medinho, mas logo alguém veio me dizer: “pra viver entre nós, basta o respeito. Aqui ninguém vai lhe pedir para ser o que não é.” Saí de lá feliz e fui para o reino Fungi.

Lá em Fungi a rainha deles me explicou que eram todos muito trabalhadores. Viviam exclusivamente para produzir tudo que consumiam. Perguntei sobre a diversidade. “Não temos essas preocupações. Trabalhamos. Temos o que precisamos.” E as pessoas por aqui são felizes? “Vocês não nos compreendem, não é? Ser feliz é trabalhar. Isso é o que importa! Aliás, você está me fazendo perder tempo. Estou muito atarefada!” Me desculpei com um sorriso amarelo e fui logo tomando outro destino.

Me vi em Plantae. Me senti em casa, sabe? Talvez por ser uma flor convicta… Nesse reino pude perceber beleza, paz e serenidade, mas também força e obstinação. Dialoguei com o rei e a rainha e perguntei dos seus anseios para o reino. “Queremos paz, harmonia, beleza e crescimento. Alguns de nos muito colaboram para isto e outros ainda não sabem como se posicionar.”

Feliz, saí dali para o reino Animalia. Também fui atendida pelos reis que vieram num cortejo, com representantes de suas forças da terra, ar e mar. Neste reino, apesar do enorme poderio de alguns, não vi destruição nem guerra. Vi um sistema que funcionava muito bem em que todos se ajudavam de alguma forma. E também finalmente percebi que havia uma relação estreita com todos os outros reinos. Lembrei da cadeia alimentar: cada um com seu papel, mas o topo não funciona sem a base. Nesse reino, ouvi algo muito interessante: “Flor, você veio conhecer o que há de sapiência em cada um de nós. Mas o mais sábio não está entre nós e pode destruir todos os reinos. É o Vírus.”

Sai de lá abismada com tal revelação. Não tinha me dado conta dos vírus que permeiam todos os reinos e que são capazes de destruir qualquer sistema. Esses vírus são a maldade, o preconceito, a intolerância, a violência. Se infiltram, subvertem a ordem e quando se vê, já era. Instala-se a ignorância, o oposto da sapiência. Então, como flor que adora séries antigas, lembrei de Robin: “Santa sapiência, Batmam!” E termino pedindo que tenham corações sapientes e percebam os vírus que se infiltram em nossos reinos nesses tempos sombrios.

Cogito ergo sum


35No final do último texto terminei usando a seguinte expressão: “…conformado com a minha sapiência humana limitada”, complementando que esse era assunto para outro momento. Aproveitando a ideia, minha amiga Hortênsia logo sugeriu que escrevêssemos sobre o assunto e eu, de imediato, aceitei sem nem pestanejar.

De maneira geral, meu pensamento sobre isso é que como indivíduos da espécie humana somos restritos em tempo e espaço. A consequência disso é que existe uma necessidade contínua de aprendizado, de adquirirmos constantemente novos conhecimentos, mas que também somos restritos para compreendermos muitas coisas que estão além do limite da nossa condição.

Associada a essa necessidade intrínseca está a nossa capacidade de criar, imaginar e fantasiar, bem como um certo incômodo em não compreendermos o que ainda não sabemos (talvez nunca saibamos). Então, acredito que usamos essas duas características para desenvolvermos mecanismos de conformação, tipo uma sublimação. De alguma maneira as respostas fictícias satisfazem o anseio por respostas, quando questionadas sobre a ausência de elementos concretos ou comprováveis, fazem uso da pequenez humana para justificar as situações, a partir do contexto da fantasia elaborada.

Se observarmos bem esse é um comportamento coletivo, atemporal e situacional – pode ser verificado em vários momentos da história, em locais diferentes para explicar fatos diversos.

Como diz meu amigo1 Pedro Calabrez – pesquisador do Laboratório de Neurociências Clínicas, energia é algo muito precioso e na natureza os seres buscam adquiri-la com o menor esforço e gastar apenas o mínimo necessário. Então, seguindo essa lógica, creio que faz todo sentido acreditarmos em ideias prontas, pensamentos pré-concebidos e seguirmos as tendências do momento, que gastar nossas energia e perder tempo pensando, subvertendo a ordem constituída ou até mesmo confrontando ideias.

1 Sou amigo dele, mas certamente ele nem me conhece, logo não é meu amigo!