Ócio pra que te quero!


32Hoje eu poderia escrever uma ode ao ócio:

Ócio pra que te quero
Se ao mesmo tempo em que te desejo
Com tanto tempo me desespero.
Não sei, se sei viver
Sem o tal do meu trabalho
Mas trabalho sem prazer.
Preciso criar um canto
Mas nessa vida de louco
Somente trabalho tanto
Que os dias vão passando
E se vão me produzindo
E eu, racionalizando.
E se paro, penso tanto
que de tanto pensar
Me vem o pranto.

Esse poeminha sem nexo me veio depois de ler novamente o texto de Domenico de Masi. Falando sobre criatividade, ele nos diz que ser criativo é saber unir fantasia e concretude. E diz que o ócio é necessário para que a criatividade aconteça. Mas se assim é, por que nos ensinam a ter culpa quando fazemos pausas?

Hoje nossas pausas são revestidas de ações. Em boa parte das vezes, vemos as pausas mais banais anunciadas: “indo dormir!”; “relaxando…”, e por aí vai nos instagrans e facebooks da vida. Se estão anunciadas, serão mesmo pausas ou é só um trabalho diferente? O trabalho de dizer ao mundo: “olha, eu estou parando só um pouquinho viu? Mas volto já, já”. Ou será que o trabalho no ócio é produzir a falsa impressão de felicidade? Ou e a culpa tão grande que é preciso dizer a todo mundo que estamos em off?

Eu sei, queridos leitores, o texto está mesmo confuso… O sentido dessa confusão toda é que criar dá muito trabalho. Entender as emoções, ter boas ideias, racionalizar sentimentos irracionais e colocar no mundo algo que seja legal, interessante e que alguém queira ler é, às vezes, mais cansativo que carregar pedras. E nada há de ócio por trás desse processo todo.

Término como iniciei: ócio, pra que te quero?

Beijos de uma flor cansada.

Trabalho, lazer e estudo!


32O ócio criativo. Esse é o título de um livro do autor italiano Domenico de Masi, que li há mais de 10 anos. Esse livro, juntamente com outros, foi transformador, lido em uma fase em que eu estava ampliando minhas perspectivas de mundo e de vida. Lembro e posso até dizer quais são alguns desses que citei: Simplicidade Voluntária, Ponto de Mutação, A Profecia Celestina e, mais tarde, O Segredo – esse último não achei tão bom, imagino que já estava saturado do assunto e parti para outra linha de conhecimento.

O livro de de Masi trata sobre trabalho. Naturalmente associamos a palavra ócio a preguiça, inutilidade e desocupação, mas a proposta não é essa. Ele defende que parte do trabalho humano seja substituído por máquinas e tecnologia e durante o tempo em que não se esteja laborando as pessoas se dediquem ao estudo e ao lazer, potencializando o que o homem faz de melhor, que é pensar e criar.

O contato que tive com essa obra ajudou a consolidar algumas impressões que obtive através de observações e experiências ao longo de anos. Vou explicar melhor essa história. Sinto que a manutenção de rotinas em alguns ambientes laborais são extremante entediantes e contraproducentes, principalmente quanto nesses locais se desenvolvem atividades mentais – essa foi a natureza de minha ocupação por muitos anos. Era muito incomodo ter que todos os dias chegar na hora certa e ter que desenvolver tarefas mentais sem a menor vontade ou inspiração e, além disso, uma tremenda perda de tempo em estar ali, tendo a plena convicção que em outro ambiente e circunstancias, aquele trabalho fluiria bem melhor e mais rápido.

Outra sensação de perda de perda de tempo era durante as conversas no horário de trabalho. Achava muito chato as pessoas conversando comigo, para “passar o tempo”, sempre com os mesmos assuntos ou ainda sobre coisas que não eu não tinha o menor interessem, sem falar dos processos de raciocínio, concentração, memoria, organização mental, que estava desenvolvendo e foram interrompidos.

Quanto a mim, especificamente, ainda há um fato agravante: não consigo produzir bem pela manhã… sou noctívago, meu corpo funciona 100% a noite!

Imaginava como seria interessante se fosse possível saltarmos dessa rotina que nos aprisiona e trabalharmos livres, apenas cumprindo metas. Certamente seria mais produtivo, eficiente, eficaz e feliz. Mas normalmente as empresas mais tradicionais valorizam pouco as pessoas que pensam e muito mais aquelas que fazem… ou dizem que faz.

Repetindo, para enfatizar, sei que esse tipo de situação não se aplica a todas as atividades laborais, tanto por questão da natureza e especificidade do trabalho como porque a maioria das instituições não estão preparadas para implementar modificações de paradigmas, que implicaria em mudanças consideráveis na cultura organizacional, estrutura e processos.

A minha percepção sobre o trabalho vai ao encontro das ideias de Domenico de Masi em várias questões. Mas um ponto que gostaria de compartilhar é quanto a necessidade das pessoas serem mais felizes e essa condição implica em ter satisfação profissional, tendo em vista que, em média, passamos metade da nossa vida plenamente consciente no trabalho – se considerarmos o período do sono de 8 horas.

E essa ausência de felicidade no trabalho é muito obvia quando observamos as pessoas contando as horas para saírem, quando contam os dias para a chegada do fim de semana ou dizem ficarem triste quando escutam o início do Fantástico, porque sabem que tem de trabalhar no outro dia. Para mim isso parece um tremendo contrassenso, porque tanta gente desempregada e as pessoas ficam angustiadas porque vão começar a trabalhar! Também para mim é triste e sem lógica essa espera ansiosa pelo fim de semana. É como se você vivesse mais 70% de sua vida no automático e somente desfrutasse menos de 30% – bem ou mal comparando é como se você tivesse vivido 60 anos e aproveitado 18 anos.

Mas chega de elucubração. Talvez eu seja apenas um sonhador ou alguém que pensa além da conta, que não está plenamente satisfeito com a realidade imposta e vai de encontro ao que está posto…

… Segundo “Ela”, os astros são os culpados. Será?!?!