Casinha, nem de brinquedo!


27Meu  amigo Tsun e eu somos pessoas um tanto exóticas. Não que andemos por aí com trajes e modos fora dos padrões. Diria até que, se dependesse da nossa aparência, passaríamos despercebidos na multidão. A questão são nossos gostos e manias pouco comuns. E talvez tenha sido exatamente isto que nos aproximou.

Entre nossas manias, ambos gostamos de descobrir pessoas incomuns, contraditórias. Aquelas pessoas que fogem à norma, que tem um quê de diferente, algo inesperado para o seu papel. E às vezes me pergunto o quanto de espelho há nessa nossa predileção…

Voltando para mim, em se tratando de homens, tenho uma queda especial por fazer amizade com os complicados. Quer prender minha atração, fuja do padrão. Não precisa ser rico, bonito, bem sucedido. Basta ser diferente… O normal, o comum, não me motiva para mais de dois dedos de prosa. Gosto de conhecer os poetas, os brutamontes manteiga derretida, os com alma feminina e masculinidade à flor da pele, os artistas das artes verdadeiras e os da arte de viver a vida.

Em se tratando de mulheres, diria que minhas amigas são bem diversas. Desde aquelas que são verdadeiras bonequinhas mas que eu não arriscaria contrariar, até as que  pela jovialidade parecem adolescentes, as maduras/imaturas, de riso fácil e sempre dispostas a fazer o outro rir. Em comum, todas elas fogem do estereótipo patricinha. Não que eu tenha nada contra Patrícias, em geral. Apenas não tenho afinidade.

Adoro os desafios mentais provocados pelos “fora da casinha”! Nada mais instigante emocionalmente que conversar com alguém que lhe traz assuntos e sentimentos inusitados. Aquelas pessoas que trazem colorido e humor mesmo quando tudo parece estar negro. Pessoas cujos olhos brilham a cada ideia nova, que encaram desafios, que conservam a criatividade da infância, mesclada com a inteligência da maturidade, independentemente de serem jovens, ou  já estarem mais perto do fim da vida.

Voltando para o meu próprio umbigo, meu lado fora da casinha se manifesta desde pequena. Nem dos brinquedos de casinha eu gostava, por falar nisso! Alimentada por paixões, tenho, e sempre tive, enormes dificuldade em me enquadrar. Até que tenho tentado mas coisa comuns não me atraem. Ainda assim tenho um carreira de sucesso, mas só porquê ela é apaixonante, e uma vida legal porquê não se enquadra nos padrões de comercial de margarina.

Ainda assim, sempre me vem uma sensação de estar deslocada, ancorada, reprimida. Aí nessas horas faço arte, que nem menino pequeno. Fujo para o meu mundo. Escrevo, desenho, pinto o sete, o oito, viro a casa de cabeça pra baixo, e sobretudo, vou correndo atrás de outros “fora da casinha” para reabastecer  minhas energias com um bom papo cabeça sem pé nem cabeça, daqueles que me fazem rir e chorar e chorar de rir.

Beijos de uma flor que cresce fora do jarro.

Homem (além) da caverna


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O nosso interesse por pessoas “fora da casinha”. Essa foi o assunto que Hortênsia propôs para esta semana. Segundo minha amiga, que fique bem claro, “fora da casinha” é muito diferente de “fora da caixinha”, mas a explicação é simples: “caixinha” seria um papel social e “casinha” a forma de pensar – esclarecimento importante, para os mais desatentos como eu, que pensava que tudo era a mesma coisa. E a nossa flor amiga ainda me disse que acredita sermos pessoas “meio fora da casinha”!

Ela está certa quanto a sua análise, realmente penso diferente da maioria das pessoas (por mais que não queira tenho que admitir). Isso pode ser bom em alguns aspectos, mas tem um custo relativamente elevado. É difícil de se encaixar a alguns padrões de pensamentos e comportamentos, não é bom ser visto como estranho, expressar ideias e, principalmente, tentar explicar ou defende-las quando sabemos que o outro não vai alcançar. Confesso que não é incomum me esforçar para ser igual.

Quanto ao interesse que as pessoas tem por aqueles indivíduos “fora da casinha”, será melhor falar da minha experiência, deixando claro que não sei se o processo é o mesmo com outras pessoas. Vou comparar a situação a um imã e sua propriedade magnética, que pode atrair ou repelir outros corpos. Algumas pessoas se sentem atraídas pelo desconhecido e sentem curiosidade para descobrir o “mistério” – talvez depois de descobrirem o que queiram, percam o interesse. Há outras que se afastam por acharem aqueles que são diferentes deles um tanto exótico, excêntricos, complicados… penso que acham perda de tempo conviver com pessoas assim ou mesmo não querem desconstruir crenças que já foram consolidadas… e certamente por outros motivos diversos – esclareço que minha intenção não é julgar esses dois tipos de comportamentos como certo/errado, bom/ruim, agradável/desagradável.

Obviamente, também tenho uma grande afinidade com as pessoas que estão “fora da casinha”. São indivíduos que me desafiam, estimulam o pensamento e conseguem me tirar da zona na de conforto. É nesse processo que cresço, confrontando ou confirmando minhas convicções.

Finalizando, compartilho com nossos milhões de leitores que as pessoas “fora da casinha” frequentemente adotam dois tipos de comportamentos para se manterem estáveis: gostam de ficar sozinhos, absortos em seu universo pessoal, e criam mecanismos que canalizam toda a energia contida, para as mais diversas atividades.

Não posso deixar de apontar a “platonicidade” de Hortênsia nessa ideia das casinhas…