Um dia como qualquer outro


23Naquele dia acordei muito atrasada e saí correndo para o metrô.

Sabia que tinha muito pouco tempo para chegar no trabalho.

No caminho fui pensando na minha vida e no relógio. O relógio… Os pesadelos com o relógio…

Acho que dormi porquê de repente não havia mais pressão, nem tempo, nem relógio.

Na minha frente se descortinava um mar tão azul, tão profundo, com ondas tão suaves quebrando na areia.

Eu saí de casa descalça e andei em direção ao mar.

No caminho parei um tempinho debaixo de um coqueiro e fiquei curtindo a sombra e a brisa e observando os dois:

Eles eram um do outro. Ela tão miudinha e tão sapeca fazendo dele gato e sapato…

Enchia o baldinho de água e o banhava.

Ele ria todo bobo, todo feliz, como só um pai de menina consegue ser.

Depois com muito carinho, ele a envolveu com a toalha e a pegou no colo.

Trouxe para casa como um troféu.

No caminho me juntei aos dois e fui contando o que tinha feito para o nosso almoço.

Nunca pensei que poderia ser tão feliz com tão pouco!

Mar, sol, luz, paz…

Dei banho na pequena Pérola e fomos para a mesa.

Olhei pra ele, sorri e… “Estação da Luz!!!”

Num sobressalto cheguei ao meu destino. Só. Só um sonho?

Desci na estação com um sorrisinho triste e uma musiquinha na cabeça!

“O amor que fica entre a fala e a tua boca

Nem a palavra mais louca consegue significar”

Quem sabe um dia eu consiga me livrar do relógio…

Sem pressa, sem parâmetros nem complicações.

Quem sabe um dia eu possa ser simplesmente Eu…

Anônima, feliz, levando na bagagem só o essencial…

Simples assim…


23Hoje o assunto é simples. Isso mesmo, vamos falar sobre a simplicidade.

Atualmente a vida em sociedade nos impõe rotinas complexas e estressantes. Nos comportamos como elementos necessários, ao mesmo tempo descartáveis, de um grande sistema, em um processo que se retroalimenta a partir do atendimento de demandas, desejos e necessidades.

Um dos inúmeros componentes que integra esse sistema é o apelo para o consumo de bens, serviços, conceitos e ideias, que se constitui como combustível do processo.

Eita, agora percebi que menti no começo… esse texto não está nada simples!

Tentando simplificar, quero dizer que a nossa evolução humana em sociedade tornou o ambiente complexo e um tanto hostil, pouco saudável, mas que estamos tão envolvidos que mal percebemos… apenas vivemos mecanicamente – pelo menos a maioria de nós. Também não é fácil pensarmos sobre isso, perceber e romper o ciclo.

Somos sempre estimulados a consumir para suprir carências criadas por esse sistema, pois nos fazem acreditar que assim seremos felizes. Sim, somos alimentados por essas pequenas doses de felicidade homeopaticamente administradas. E como a palavra (e ação) de ordem é o consumo, transformamos a própria felicidade em um bem de consumo.

Para a manutenção desse sistema é necessário que as pessoas cada vez consumam mais, causando males as pessoas, como e a permanente sensação de falta e o desejo de querer ter. Esses aspectos causam um desequilíbrio nas pessoas, afetando suas vidas como um todo, causando também uma desarmonia social.

Talvez uma forma de transforma esse ciclo vicioso e virtuoso, seria exatamente quebrar paradigmas e repensar conceitos, posturas e comportamentos. Penso que uma maneira de começar é adotando a simplicidade como estilo de vida. E quando cito a simplicidade estou me referindo a um comportamento que vai além de sobreviver com poucos recursos. Seria começar a regozijar-se com as “dádivas” que a vida nos oferece a todo instante; apreciar a beleza, mesmo quando o belo não está tão aparente; valorizar amigos, familiares, desconhecidos; saber ouvir as pessoas e filtrar o que elas podem nos oferecer de melhor; procurar observar a harmonia da natureza; priorizar o que realmente tem importância; “baixar a guarda” e “depor a armas”; repensar sua relação com o trabalho; sermos mais otimistas, sabendo que algo pode dar errado, mas acreditando que vai dar certo… além de tantas outras condutas.

Tenho certeza que estamos muito distantes dessa condição utópica, provavelmente é algo que devemos começar mas os frutos somente serão colhidos a partir de futuras gerações… mas entendo que já passou da hora de mudar esses paradigmas, há muito a nós impostos, quebrando essa lógica perversa que proporciona sofrimento aos indivíduos (e nem conseguirmos perceber os reais motivos) e desestruturação da sociedade. Alguém tem que começar!