Ter ou ser, eis a questão!


26Recentemente fui visitar uns amigos e conversamos muito sobre famílias. Na evolução da conversa, fizemos um percurso pela história das nossas famílias e no fim, percebemos a involução do número de filhos: de quase vinte dos nossos bisavós, a uma média de 10 dos nossos avós, uns três, dos nossos pais e zero na nossa geração, sem vontade de ter nenhum!

Fiquei pensando no papel dos filhos nas famílias e no amor. Me questionei muito se, com 20 filhos, era possível amar de fato cada um. E fiquei pensando sobre, se nenhum filho e vontade zero, não é sinal excesso de amor por si mesmo. Não tenho resposta nenhuma para as minhas indagações…

Mas vamos pensar juntos? No passado, muitos filhos eram, além do acaso, resultante de uma vida sexual ativa, uma necessidade. Nasciam muitos, se criavam uns, outros adoeciam. Os que se criavam eram, por assim dizer, a riqueza dos pais. Braços para o trabalho dos menos abastados e garantia de assistência futura na velhice, fosse abastado ou não, já que nem existia previdência social nem aposentadoria. Nesse sentido, imagino o quanto as famílias se uniam e preservavam os laços. Evidentemente o afeto era um deles.

Depois, mais recentemente, na era dos nossos pais, as mulheres foram pouco a pouco para o mercado de trabalho. Vieram a pílula anticoncepcional e os outros métodos contraceptivos em larga escala, a liberdade sexual. Os filhos, de obrigação, passaram a ser escolha. Mesmo assim ainda existia uma pressão social grande. Ter filhos era sinônimo de vida heteronormativa, de família de comercial de margarina. O modo certo de viver: casar e constituir família. Muito lindo! Ou não?

Aí chegamos no nosso tempo. Aqueles filhos dos nossos pais cresceram. Aprenderam que a vida é feita de muitas escolhas. Que necessariamente não precisariam ser pais biológicos; que amar a si mesmos poderia ser incompatível com uma organização de vida que significasse uma doação de si ao outro (porquê se tornar pais implica em grandes renúncias, de todo modo); que desejo de maternidade/paternidade existe ou não independente de ser ou não heteronormativo; que filho gera prazer/desprazer independente do amor/desejo dos pais. E surgiram muitas famílias sem filhos e filhos sem famílias também.

Ai volto ao título dessa nossa conversa: filhos, ter ou ser? Eu acredito que essa escolha tão pessoal é muito difícil, na medida em que não há uma reversão do ato de colocar um filho no mundo. E há ainda uma grande diferença entre TER um filho e SER pai ou mãe. Acredito que quando alguém se torna pai ou mãe de verdade, a vida muda, as escolhas se invertem, e mesmo que você queira permanecer no comando de suas escolhas de vida, elas não serão mais centradas no seu umbigo. No entanto, quando você tem filhos, em lugar de ser pai ou mãe, é seu eu quem impera. Então vale deixar nas costas dos avós; na escola sem participar da educação; com o pai/mãe sem visitar, sem participar da vida. Ter é ato biológico. Mas ser, é escolha. Uma escolha que tem consequências muito sérias e definitivas na sua vida, na vida do seu filho e no meio social.

Então, eu penso o seguinte: se você não está pronto para renunciar, esqueça o ato biológico de ser pai/mãe. Fique só treinando, que sexo é bom; prazer é melhor ainda! Será muito melhor pro mundo se você contribuir não colocando no mundo uma criança que não será intensamente amada, assistida e educada. Mas não estou dizendo aqui que quem não tem filhos não e capaz de amar. Tenho vários amigos e amigas que são tão amorosos que o amor transcende nos gestos com o próximo. São disponíveis, afetivos, super do bem! Seriam ótimos pais. Estou falando de disponibilidade. Porquê ser pai/mãe é difícil, cansativo, prazeroso, complicado. Não depende de casamento ou relacionamento sério. Não tem receita de bolo, dá certo quando tudo está errado e errado, quando tudo parece ir bem. E como diz uma amiga minha: é a única coisa da qual você nunca se torna ex. Se seu lema é #adoroliberdade, seja feliz!

Filhos… Filhos?


26No Poema Enjoadinho, Vinícius de Morais diz que é “melhor não tê-los! Mas se não os temos Como sabê-lo?”

Gosto muito da obra de Vinícius e, em especial desse poema, mas concordo apenas com a primeira parte dele… melhor não tê-los. A relação que tenho com as crianças é muito boa, não lembro de alguma que não tenha simpatizado comigo, mas nada além disso… os pais que tomem conta.

Muitos amigos questionam por que não quero ser pai. Ao longo desses poucos anos de vida desenvolvi teorias para justificar essa minha escolha, mas não seria nada interessante que alguém se identificasse com essas ideias, para o bem da raça humana.

Então, vou aqui elencar apenas quatro dessas teorias malucas:

  1. Sei que essa afirmação é totalmente ilógica, mas penso ser injusto a gente não ter a opção de decidir sobre nossa concepção;
  2. Não estou nem um pouco disposto a mudar meus hábitos e comportamentos por um filho, muito menos abdicar de alguns prazeres para ser pai;
  3. Ouço muita gente dizer que “ser pai/mãe é padecer no paraíso”. Considerando que a condição de pai e de mãe é irreversível, quando escuto essa afirmação, só imagino que as pessoas estão falando isso para minimizar a situação, ou seja, o paraíso não existe;
  4. Por fim, acho um absurdo quando muitos pais, mesmo que implicitamente, enxergam seus filhos como um “investimento”. Na verdade são pouquíssimos que verbalizam suas intenções, mas é certo que mensagens não são transmitidas apenas através das palavras.

Contraditoriamente, porque sou assim mesmo, tenho certeza absoluta que seria um ótimo pai… as vezes até imagino uma menina… “bicuda” – como dizem por ai, os entendedores entenderão!