O olho que tudo vê


16Hoje estou uma hortênsia rosa, me sentindo muito bela! Isso é incomum porquê buscar ser bela nunca foi uma preocupação para mim, embora em outro texto tenha me colocado como bela, recatada e do lar, como uma certa Marcela, na verdade talvez seja o oposto de tudo isto mas deixo a imaginação com vocês…

Então vou começar essa nossa conversa com algumas perguntinhas: o que é a beleza? De onde ela vem? Até quando dura?

Conheço muito bem os padrões que regem a beleza feminina nos tempos atuais. Os seios de silicone, o bumbum forjado a muita malhação, a pele de porcelana toda trabalhada na maquiagem. E eu, como hétero, sou uma grande apreciadora da beleza masculina, aquela dos abdomens de tanquinho, dos músculos de artista de filme de ação.

Então a beleza é um estereótipo, socialmente construído e vem de um corpo sarado e dura até que este corpo se estrague, certo? Minha resposta é um grande, redondo e sonoro não! Beleza vem de dentro, emana, e só é vista quando olhamos para dentro do outro.

Meu amigo Tsun, para falar de beleza, talvez dialogue com o poetinha. Eu prefiro dialogar com meu outro amigo, o Antoine, aquele aviador, lembram? Ele me disse num livro que “o essencial é invisível aos olhos”.

Hoje, para falar de beleza, vou me dar a licença de ser muito autorreferente e contar um pouco da minha vidinha e dos homens que me chamaram atenção. Alguns dos quais compartilharam momentos comigo, outros só apreciei.

Alguns deles poderiam ser apreciados por quem acha que a beleza está no exterior: eram lindos no sentido estrito da palavra. Homens daqueles que a gente tem vontade de mordiscar o lábio inferior e sentir a força dos músculos (nada contra isso, evidentemente!). Outros eram sem nenhuma beleza aparente e se mostravam bonitos no olhar, no jeito de falar, enfim, na forma de ser. Mas todos aqueles nos quais encontrei beleza tinham em comum as mesmas qualidades: tinham caráter! E por isso eram inigualavelmente belos…

Pois é, gente. Para mim a beleza vem exatamente de dentro e é vista também de dentro. Voltando para o meu amigo Antoine, “só se vê bem com o coração”. De nada vale um corpo sem uma alma linda, e também de nada vale um olhar para um corpo que não sabe encontrar a beleza que vem de dentro.

Então, mais algumas perguntas:  e vocês? Que belezas e beldades apreciam?

De onde vem sua beleza? E o seu olho? Tudo vê?

Beijos de uma flor de olhos bem abertos.

Beleza é fundamental?


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As muito feias que me perdoem

Mas beleza é fundamental.

Foi isso que disse Vinícius de Morais, no poema “Receita de Mulher”.

Outro dia ouvi uma entrevista com Vinícius onde ele dizia estar se referindo apenas as MUITO feias e que já ficou com “feias lindas”. Acredito que tem razão, porque está expressando de maneira pragmática como os homens pensam e se comportam. É simples, nos interessamos pelas mulheres por um padrão de aparência e/ou afinidade. Quando por aparência, a atração é imediata e a aproximação vai de acordo com a estratégia de cada um. Se for pela afinidade, o processo requer convivência e a consequente descoberta de outros tipos de beleza, além da física. Em síntese, o “poetinha” disse isso.

Mas a frese de Vinícius, que se tornou bastante popular e foi objeto do meu comentário, não retrata a essência do poema. Se restringirmos o cerne do poema a essa frase, estaremos sendo injustos e pouco inteligentes. Na verdade, ele se utiliza da ironia quando diz que beleza é fundamental, pois na sequência descreve inúmeras virtudes femininas, impossibilitando que as mulheres sejam muito feias por ausência dos predicados mencionados.

Vinícius retrata a beleza feminina através da sensualidade, delicadeza e elegância (haute couture/alta costura); do encantamento, provocação e mistério. Entendo que no poema o autor expõe o imaginário masculino e ao mesmo tempo transforma esse aspecto subjetivo em um elemento concreto, quando atribui a característica da plenitude e liberdade as mulheres, sendo todo esse processo narrado com uma certa leveza – vejam o trecho que ele democraticamente insinua a necessidade das mulheres possuírem uma hipotética barriguinha.

Sobre o mesmo tema, Martha Medeiros escreveu a crônica “Feios porém lindos”:

Aos feios, as mulheres dão boas vindas, desde que por trás do olho que não é azul e do corpo que não é atlético haja bom humor, inteligência e sex appeal.

É porque mulher tem raio-x: consegue olhar o que se esconde lá dentro.

O trecho escrito por Martha Medeiros trata o assunto a luz da percepção feminina. Com as mulheres acredito que funciona assim mesmo. Elas se importam bem menos com a aparência do companheiro que nós homens, por natureza são mais intuitivas e admiram a beleza que não se enxerga. Confesso que tenho dúvida se essa característica consiste em uma evolução de gênero ou esse aspecto é uma diferença necessária para ambas espécies.

Continuando, ratifico genericamente o que afirmei no início do texto, mas faço algumas ressalvas sobre como me comporto diante da beleza feminina. Sem entrar em detalhes vou elencar 4 aspectos:

  • uma mulher bela tanto me atrai quanto me afasta;
  • admirar a beleza de uma mulher é muito agradável, mas caso venha conhecê-la provavelmente perderei essa admiração;
  • se estiver com uma mulher fisicamente bela, ótimo, mas com certeza não é isso que me fará permanecer com ela;
  • Uma mulher não precisa ser dotada de beleza física para ser linda.

Por fim, é necessário enfatizar que não vou pormenorizar esses quatro aspectos, mas talvez seja interessante que o leitor ou leitora pense a respeito, sabendo que as ideias expressas são mais complexas do que parecem, assim como é importante descobrir até que ponto esses itens refletem pensamentos individuais ou coletivos, no âmbito do universo masculino.