Me morda!


14Meu querido amigo Tsun me propôs um desafio: escrever sobre alguma vivência que possua relação com a música A Maça, de Raul Seixas.

Devo dizer que topei o desafio com um certo receio…

Passei alguns dias cantarolando a música e remexendo minhas memórias (como se tivesse tantas assim)!

A primeira coisa que pensei foi: quem gosta de maça não irá gostar de todas. Nem todas as maças são iguais…

Existem as vermelhas intensas, aquelas que a gente sente uma vontade louca de morder… Existem as ácidas que a gente sabe que vão causar dor e ainda assim a gente tem vontade de experimentar. Existem as verdes, que carecem de amadurecer mas nunca deixarão de ser verdes. Há ainda as quase amargas, rústicas e comuns. E as já passadas do ponto, nas quais não sentimos firmeza.

Enfim, de tantas maçãs, acabamos por escolher uma e depositamos nela todas as nossas esperanças de uma relação perfeita.

E ela até permanece perfeita por algum tempo.Até que descobrimos o bichinho da maçã…

Pensando bem, esse texto podia ser uma ode ao bichinho da maçã…

Refletindo sobre isso, um trechinho da música ficou grudado na minha cabeça:

“Quando eu te escolhi

Para morar junto de mim

Eu quis ser tua alma

Ter seu corpo, tudo enfim

Mas compreendi

Que além de dois existem mais…”

Pois é, além de dois existe o bichinho da maçã. O bichinho que come por dentro na forma dos desejos não realizados, das incompreensões, das limitações impostas, das cargas emocionais excessivas, da privação da liberdade de escolha. Da limitação da felicidade alheia. O bichinho que desgasta o amor…

E aí um dia a gente descobre que existem outras maçãs e algumas delas parecem melhores, mais deliciosas, mais agradáveis. Parecem dizer: “me morda! Sinta meu gosto doce… Não serei ácida, não tenho bichinhos ainda, nem vai durar o tempo de estragar.”

Aí vem a outra parte da música:

“Amor só dura em liberdade

O ciúme é só vaidade

Sofro, mas eu vou te libertar”

E vem a raiva, a culpa, o medo, a repressão e nós mulheres muitas vezes pensamos: “é melhor ficar com minha maçã estragadinha, já sem gosto, com meu bichinho conhecido que essa outra que me enche os olhos e o coração”. E nos sabotamos, engordamos, nos fazemos menos deliciosas e mais desgastadas.Criamos nossos próprios bichinhos para não virarmos aquela maçã deliciosamente vermelha e saborosa e não corrermos o risco de pedir com o olhar: “me morda!!!!”

Toda essa conversa e eu lanço uma pergunta: devemos ser a maçã ou ter uma maça?

Sem mais, me despeço, vermelha, brilhante e plena, queridos leitores!

E segura de que também mordo muito bem!

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