A Pequena Graciosa


9Sou recordista universal em histórias que não foram bem resolvidas. Mas antes de falar sobre o assunto, vou explicar o que considero uma situação dessa natureza. História não resolvida é aquela que por algum percalço não teve um fim definido; que não teve um ciclo fechado, nos fazendo pensar nas circunstâncias que motivaram o insucesso da relação e ao mesmo tempo acreditando que, se não fosse por aquele detalhe, poderia ter dado muito certo.

Foram muitas histórias – bonitas, especiais e únicas, mas escolhi a seguinte:

Alguém se lembra da expressão “dial-up”? Pronto, tudo começou nessa época. Era um termo usado para o acesso à internet utilizando rede pública de telefonia que estabelecia conexão com um Provedor. Faz tempo. Nessa época era comum usarmos programas como ICQ, Messenger ou Orkut para “encontrar” pessoas.

Foi através de um desses aplicativos que conheci “A Pequena Graciosa”. Passamos muitas madrugadas conversando virtualmente. Demorei meses para conhecê-la pessoalmente, pois morávamos em estados diferentes, até o dia em que ela resolveu vir a minha cidade… Partiu brevemente. Tinha uma beleza física comum, não era isso que chamava mais a minha atenção – discordo do “poetinha”, quando diz que beleza é fundamental, para mim isso nunca foi importante – era magra, de pele muito branca, loira e usava aparelho ortodôntico. Porém, sua voz, olhar, comportamento, expressões, inteligência e atitudes superavam a de qualquer outra, além da grande afinidade que tínhamos. Mulher incomum, além do seu tempo, inquieta, parecia que o mundo era pequeno para ela, sempre me provocando a sair da zona de conforto. Depois dessa rápida visita, lembro que cogitamos começar uma relacionamento, mas eu sabia que não daria certo. Eu era muito jovem, estávamos distantes e tinha consciência de que dificilmente ficaria somente com ela. Porque então iria correr o risco de perder o pouco que havíamos construído, por uma relação com uma forte tendência a não dar certo? Não sei se aquela foi uma atitude o correta ou faltou ousadia.

Um dia ela voltou a minha cidade e nos encontramos mais uma vez, rapidamente. Como cidadã do mundo estava indo conhecer mais um pedacinho dele (Itália) e seu voo partiu da minha cidade. Percebi que estava eufórica, conversamos um pouco e quando ela foi se despedir me deu um beijo caloroso. Fiquei surpreso, não esperava, foi especial. Nosso contato físico, mais íntimo, nunca passou disso.

O tempo passou, muitas coisas aconteceram e nos afastamos. O certo é que “A Pequena Graciosa” sempre estará em minhas lembranças mais saudosas e acredito que eu nas dela. Hoje seguimos caminhos diferentes, ela tem uma bela família, contudo das poucas vezes que conversamos, falamos com muito carinho.

Uma vez confidenciei a um amigo que se eu pudesse escolher uma mulher para viver até o fim da minha vida, seria ela. Meu amigo, cético e conhecedor da minha história e personalidade, logo retrucou, dizendo que eu só estava falando aquilo porque não poderia vivenciar aquela experiência. Talvez ele estivesse certo, provavelmente está errado.

Tenho saudade de você, “Pequena Graciosa”, saudade do que nunca aconteceu.

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