Tatuagem de henna


8O que é uma relação? Um encontro existencial? Uma imposição? Um somatório de desejos? Uma construção social? Tudo isso? Nada disso?Um amigo me disse outro dia que um relacionamento é uma soma, onde um mais um são três, e o terceiro é a própria relação. Por minha conta acrescento que uma relação quase tem vida própria. E portanto não há uma mágica nem uma receita de como dar certo e muito menos de terminar  ou então de consertar o que não está tão bom assim, de modo que na vida há aqueles relacionamentos mal resolvidos a nos perturbarem a alma de vez em quando. Mas, por que não os resolvemos? Eis a questão…

Mal resolvidos
Mal resolvidos seguimos unidos
Esperança, rusga e sonhos
Pudor, amor e ganhos
Desafetos e afetos vividos.
Mal resolvidos seguimos ligados.
Nas conversas e lembranças
Nas eternas desavenças
E nós dois enfeitiçados….
Mal resolvidos seguimos amando
Um amor sem qualidade
Quase infelicidade
Ao qual nos apegamos.
Mal resolvidos seguimos atados
A um passado de dor
Um presente sem amor
Quase despedaçados…
Mal resolvidos abrimos mão
De muito do que queremos
E aquilo que não seremos
Trancamos no coração.
Mal resolvidos estamos agora
Reprimindo um desejo
Que nos olhos é lampejo
Do ardor que nos devora.
Mal resolvidos não vamos estar!
Minha tatuagem de henna
Só fica valendo a pena.
Só assim vou renovar…

Penso que, em boa parte das vezes, relacionamentos mal resolvidos escondem um medo intenso do que foge ao nosso controle.

É mais fácil ficar com o conhecido que mergulhar na imensidão do inescrutável.

É menos doloroso viver com o companheiro/companheira ao qual não estamos ligados que correr o risco de ficar só.

É mais cômodo escudar-se numa relação falida que arriscar  uma nova.

É aparentemente mais seguro fingir que não se vê o que está diante dos olhos para não se magoar.

É menos doloroso calar que arriscar ter um papo reto e se decepcionar com o que vem em resposta.

É…, é…, é…

Repetimos muito erros. Medimos o novo pela régua do antigo e enquanto isso o tempo passa.

Devíamos aprender com as flores e as borboletas a viver o momento presente, a nos permitir toda a plenitude, vivendo um dia de cada vez.

E devíamos fazer como dizem os psicólogos: ir fechando guestalts, ou seja, fechando ciclos. Levando o aprendizado mas não o medo, a carência, a tendência de repetir o que já temos certo que não nos nos faz bem.

Não vamos nos resolver pelo outro. Nem podemos resolver o que é do outro. Mas a busca da felicidade é uma escolha pessoal, como também aquilo que vamos permitir que nos marque a alma.

Sei que ninguém é perfeito e que aqui e ali algumas adquirimos algumas  tatuagens, como uma vez disse meu amigo Tsun. Mas no meu atual momento de vida, e nos meus relacionamentos, eu prefiro as tatuagens de henna…

Muito amor de uma flor carinhosa, mas acima de tudo, corajosa!

A Pequena Graciosa


9Sou recordista universal em histórias que não foram bem resolvidas. Mas antes de falar sobre o assunto, vou explicar o que considero uma situação dessa natureza. História não resolvida é aquela que por algum percalço não teve um fim definido; que não teve um ciclo fechado, nos fazendo pensar nas circunstâncias que motivaram o insucesso da relação e ao mesmo tempo acreditando que, se não fosse por aquele detalhe, poderia ter dado muito certo.

Foram muitas histórias – bonitas, especiais e únicas, mas escolhi a seguinte:

Alguém se lembra da expressão “dial-up”? Pronto, tudo começou nessa época. Era um termo usado para o acesso à internet utilizando rede pública de telefonia que estabelecia conexão com um Provedor. Faz tempo. Nessa época era comum usarmos programas como ICQ, Messenger ou Orkut para “encontrar” pessoas.

Foi através de um desses aplicativos que conheci “A Pequena Graciosa”. Passamos muitas madrugadas conversando virtualmente. Demorei meses para conhecê-la pessoalmente, pois morávamos em estados diferentes, até o dia em que ela resolveu vir a minha cidade… Partiu brevemente. Tinha uma beleza física comum, não era isso que chamava mais a minha atenção – discordo do “poetinha”, quando diz que beleza é fundamental, para mim isso nunca foi importante – era magra, de pele muito branca, loira e usava aparelho ortodôntico. Porém, sua voz, olhar, comportamento, expressões, inteligência e atitudes superavam a de qualquer outra, além da grande afinidade que tínhamos. Mulher incomum, além do seu tempo, inquieta, parecia que o mundo era pequeno para ela, sempre me provocando a sair da zona de conforto. Depois dessa rápida visita, lembro que cogitamos começar uma relacionamento, mas eu sabia que não daria certo. Eu era muito jovem, estávamos distantes e tinha consciência de que dificilmente ficaria somente com ela. Porque então iria correr o risco de perder o pouco que havíamos construído, por uma relação com uma forte tendência a não dar certo? Não sei se aquela foi uma atitude o correta ou faltou ousadia.

Um dia ela voltou a minha cidade e nos encontramos mais uma vez, rapidamente. Como cidadã do mundo estava indo conhecer mais um pedacinho dele (Itália) e seu voo partiu da minha cidade. Percebi que estava eufórica, conversamos um pouco e quando ela foi se despedir me deu um beijo caloroso. Fiquei surpreso, não esperava, foi especial. Nosso contato físico, mais íntimo, nunca passou disso.

O tempo passou, muitas coisas aconteceram e nos afastamos. O certo é que “A Pequena Graciosa” sempre estará em minhas lembranças mais saudosas e acredito que eu nas dela. Hoje seguimos caminhos diferentes, ela tem uma bela família, contudo das poucas vezes que conversamos, falamos com muito carinho.

Uma vez confidenciei a um amigo que se eu pudesse escolher uma mulher para viver até o fim da minha vida, seria ela. Meu amigo, cético e conhecedor da minha história e personalidade, logo retrucou, dizendo que eu só estava falando aquilo porque não poderia vivenciar aquela experiência. Talvez ele estivesse certo, provavelmente está errado.

Tenho saudade de você, “Pequena Graciosa”, saudade do que nunca aconteceu.