Freud explica e Hortênsia descomplica


6Meu querido amigo Tsun é uma pessoa intrigantemente complexa,  dessas com quem a gente tem uma vontade inesgotável de conversar para ver se entende melhor. Nas nossas insuficientes conversas (porquê nunca me dou por satisfeita), não é raro eu ficar sem resposta para os questionamentos e reflexões de Tsun e responder com um “Freud explica”.

O “Freud explica”, aliás, é aquela frasezinha que usamos quando não conseguimos explicar coisa nenhuma… Por exemplo: se você está sempre repetindo situações de vida, ele, o Dr. Freud, diria que é uma repetição ligada à  relação com seus pais. É seu inconsciente lhe levando a reviver situações. São suas pulsões (entenda desejos) controlando sua vida.

Se por outro lado, você se reprime abafando um desejo, é o seu superego. É o seu juiz guardadinho no  inconsciente, fazendo você abster-se de viver o desejado. E por aí vai.

Dessa reflexão nascida na conversa com meu querido amigo, me peguei pensando o que o Dr. Freud ainda explica e também se eu quero que ele explique… Então resolvi descomplicar porquê nenhuma teoria vai explicar amores, afinidades, ódios, rancores, ciúmes e tantos outros sentimentos humanos vividos diuturnamente.

Dr. Freud, com todo respeito que lhe tenho como pai de uma das mais bonitas profissões que conheço, prefiro que não explique nadinha! Nada que diga vai me convencer do que acontece quando duas pessoas se aproximam num maravilhoso encontro existencial. Nada que esteja em seus livros vai ser maior que a vontade de alguém mudar seu próprio destino e dar uma reviravolta na vida se assim resolver. E não há repressão que contenha de fato a pulsão nos dias atuais.

As pessoas não são simples marionetes de histórias passadas. São atores num palco em constante mutação e que nos dias atuais se transmutam enquanto a cena transcorre.

Então, Dr. Freud, permaneço descomplicadamente amando a complexidade do ser humano; sentindo meu corpo e coração vibrarem com sentimentos, sorrisos e abraços; me permitindo cantar alto e misturar lágrimas com sorrisos. Vou vestir uma roupa inusitada, se assim desejar. Vou apreciar situações e amigos diferentes e entender o amor nas suas várias facetas,  inclusive aquelas chamadas de amizades, entre diferentes ou iguais.

Para terminar, desejo a todos que Eros sempre seja maior que Thanatos. Que a pulsão de vida, que ouso chamar de força do amor, prepondere, pois como dizia Cora Coralina “… nada do que vivemos tem sentido se não tocamos o coração das pessoas”.

Finitude


6Como somos seres em constante evolução, estou frequentemente reformulando os conceitos que criei ao longo da vida. Acho interessante esse processo, porque normalmente não descarto por completo minhas ideias originais, apenas vou agregando novos elementos e, dessa forma, acredito que vou me transformando em uma pessoa melhor.

Esse processo que mencionei, aconteceu quanto ao que pensava sobre as motivações que as pessoas tem para viver. Não estou me referindo aos motivos pontuais, como os elementos específicos que nos fazem gozar de um aceitável equilíbrio bio-psico-social. Claro que esses são aspectos fundamentais.

Inicialmente, acreditava que todas as relações humanas aconteciam motivadas apenas em função da sexualidade. As pessoas, inconscientemente, buscavam equilíbrio financeiro e todas os benefícios proporcionados por essa situação, ter uma boa saúde e ser uma pessoa interessante apenas para encontrar outras que pudessem manter um relacionamento. A partir desses impulsos havia duas alternativas: conhecer muitas pessoas e aprender com elas e a outra, que seria consequência da primeira, encontrar uma parceira ou parceiro para manter um relacionamento mais duradouro, por tempo indeterminado. Simples assim.

Pois bem… recentemente tenho refletido muito sobre a morte. Deixe eu explicar… Pensado especificamente nos processos que adotamos enquanto vivos, em função da certeza da morte. Então, passei a acreditar que estava enganado. Não somos motivados pela sexualidade, mas sim pela percepção da nossa finitude.

A certeza da morte é o combustível para vivermos, porém creio que não temos essa percepção e nem seria salutar que tivéssemos. Precisamos fazer tudo, antes que a nossa hora chegue, necessitamos deixar um legado… perpetuar a espécie e consequentemente as nossa características genéticas, é importante fazermos o melhor para as próximas gerações usufruírem e, principalmente, praticarmos boas ações para garantir um, possível, futuro mais tranquilo após a morte – tipo uma poupança.

Complementando essa sequência de ideias, imagino também que essa evolução de pensamento acontece de acordo com a etapa de vida de cada um. A criança basicamente tem preocupação em brincar e se desenvolver, o adolescente e o jovem adulto está focado em se afirmar em vários aspectos, com a aproximação da velhice as pessoas começam a se preocupar com a finitude.

Como diz o Maluco Beleza, na música Canto para a Minha Morte:

“Vem, mas demore a chegar.

Eu te detesto e amo morte, morte, morte

Que talvez seja o segredo desta vida

Morte, morte, morte que talvez seja o segredo desta vida.”

P.S.: desde criança escuto essa música… acho interessante, ela me fez pensar sobre o assunto.